terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Buracos

Uma história de amor.



Buracos

Ele desceu do pedestal e andou por entre as plantas amareladas que alcançavam seu joelho. A lua cheia, firme no céu, brilhava no campo e revelava os olhos tristes dele. Ele continuou andando por alguns minutos até chegar ao lago prateado. Esta era sua rotina. Após ficar horas sem fazer nada no sol escaldante, ele andava até o lago para se refrescar durante a noite.

Os olhos negros olhavam para seu próprio reflexo na água cristalina e foi então que ele viu, em seu peito, aquele buraco. Buraco o qual era marcante, o local onde uma vez houvera um coração. Agora, apenas o vazio característico no tórax que o fazia único lhe restara.

Molhou a palma da mão na água como fazia todas as noites e percebeu uma pequena parte de si ficar tão molhada a ponto de ser levada pela água. Tudo bem. Aquele pedaço que agora flutuava solitário na água devia ser apenas um dos muitos que já lhe foram retirados sem sua vontade. Esse, porém, era um pedaço que podia ser reposto, diferente daquele em seu peito.

Neste momento, ele sentiu a água tremer e afastou-se assustado; aquilo nunca tinha acontecido antes. Próxima à margem, a imagem de uma mulher apareceu. Tinha a pele clara e brilhante, como plástico, e seu cabelo era fosco e vermelho, como se a água tivesse retirado seu brilho natural. Seus lábios não tinham cor e ela estava nua, mas a sua característica marcante eram os buracos. Ao invés de olhos, ela tinha buracos; dois enormes buracos. Ela era a mulher mais bonita que ele já vira.

- Olá. – disse ela, sorrindo e mostrando os dentes alvos. – Há muito tempo que o vejo na superfície, mas nunca tive coragem de subir para conversar. Isto é, até hoje.

- Você me via? Mas como se você não tem olhos?

- Meus olhos foram arrancados de mim há muito tempo e isso tirou a minha capacidade de enxergar por um tempo, mas há muitas coisas no mundo que independem de olhos para serem apreciadas. Não preciso deles para enxergar, assim como você não precisa do seu coração para amar.

Ele espantou-se.

- Posso ter perdido meus olhos, mas meus ouvidos estão intactos e funcionam muito bem. Tenho ouvido seu lamento durante as noites, suas palavras de saudade, amor, paixão, coragem, medo, tristeza, paz, beleza e tantas outras qualidades e sentimentos. E foram estas palavras, estes lamentos, essas emoções que me fizeram enxergar através da palha que molda o seu corpo. Foram estas palavras que fizeram eu me apaixonar por você.

Ele não sabia o que dizer. Tudo era tão novo, tão belo, tão emocionante. A mulher nua aproximou-se e tocou-lhe o rosto.

- Você fez com que eu enxergasse além do que meus olhos poderiam enxergar, mesmo depois de tê-los roubados. Sinto-me na dívida de fazê-lo amar, mesmo depois de terem roubado seu coração.

Ela encostou seus lábios pálidos nos dele e ele sentiu algo que jamais havia sentido. Seu corpo esquentou, suas mãos pareciam tremer e o fôlego sumiu de dentro de si. A mulher afastou-se e sorriu novamente, quando ele colocou a mão sobre o buraco e sentiu um incômodo. Era algo que ele não sentia há muito, muito tempo. Era a sensação de seu coração bater.

- Viu? Você sente, não é? É o seu coração batendo. É sentimento. Só porque você tem um buraco no lugar de um coração, não significa que você não é capaz de amar, de sentir...

Eles se olharam por alguns minutos sem falar nada.

- Obrigado – disse ele.

Tudo parecia tão claro quanto o lago ao lado deles. Tudo graças àquela bela mulher sem olhos.

- Está quase amanhecendo – disse ela ao olhar para o céu quase claro. - Você deve voltar para a plantação...

Ele concordou com a cabeça e levantou-se.

- E você? Como fica?

- Não sei... Apenas sei que meus dias dentro neste lago terminaram.

Eles trocaram sorrisos e ele virou, voltando para o campo amarelo em seu ritmo lento. Algo dentro de si ardia e ele sabia que era seu coração ou o buraco que restara em seu lugar. Estava feliz. Estava triste. Sentia-o bater mais rápido e mais devagar ao mesmo tempo sem sequer ele estar ali presente. Estava apaixonado.

Lentamente, ele voltou ao pedestal e ergueu os braços quando o sol apareceu no horizonte.

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